Hans Staden entre os índios

História do viajante alemão que escapou de ser devorado vira filme falado em tupi

O cineasta paulista Luiz Alberto Pereira sempre enxergou na história de Hans Staden, o viajante alemão que naufragou na costa brasileira em 1550 e quase foi devorado vivo pelos índios tupinambás, um perfeito roteiro cinematográfico. De junho de 1996 a agosto de 1997, o autor dos longas Jânio a 24 Quadros e O efeito ilha dedicou-se à preparação do filme sobre o aventureiro, tornado célebre pelo relato em minúcias que fez de sua experiência, já de volta à Alemanha, em livro de memórias lançado em 1557. As filmagens de Hans Staden foram realizadas em outubro do ano passado e o longa, no momento em fase de sonorização, deve entrar no circuito comercial em agosto. Antes, porém, faz uma pré-estréia em Lisboa, em 30 de abril, dentro das comemorações dos 500 anos do Descobrimento do Brasil.

Luiz Alberto jura que não fez o filme pensando na data. O tema, no entanto, se encaixa com perfeição na onda de resgate histórico que tomará conta do país nos próximos meses e no ano que vem. E ainda deverá atrair a curiosidade do espectador estrangeiro, a quem reserva "um impacto estético muito estranho", acredita o diretor. Nada, é claro, comparado ao que sofreu o próprio Staden, quando aqui aportou e deu de cara com seres de pele vermelha e hábitos curiosos. Luiz Alberto quis reproduzir um pouco dessa primeira impressão e, ao mesmo tempo, mostrar a riqueza de uma cultura praticamente extinta. Para isso, se permitiu uma ousadia: com a ajuda de dois lingüistas ligados à Universidade de São Paulo (USP), Eduardo Navarro e Helder Ferreira, resgatou a língua falada pelos tupinambás na época do Descobrimento. Ao longo de todo o filme, os personagens só falam em tupi. Obviamente, com legendas em português ou inglês.

Uma outra iniciativa do gênero no cinema nacional foi Como era gostoso o meu francês (1971), de Nelson Pereira dos Santos. Nesse caso, os diálogos foram criados por Humberto Mauro, um grande conhecedor de tupi.

"Os atores dominaram a língua tão bem - Luiz Alberto volta a falar de Hans Staden - que em pouco tempo falavam na minha frente entre eles, brincando com o fato de eu não estar entendendo nada". A preocupação com a reconstituição histórica levou o diretor a construir, em Ubatuba, no litoral norte de São Paulo, a réplica de uma aldeia tupinambá do século 16, onde foram realizadas as filmagens. Foram rodadas cenas ainda no Forte de Bertioga, também no litoral paulista, e em Portugal, no interior de uma cópia da caravela de Vasco da Gama. "Para trazê-la ao litoral brasileiro gastaríamos R$ 250 mil", diz o diretor, que gastou R$ 1,35 milhão para fazer o longa.

O rigor de Luiz Alberto está presente também na escolha do elenco, entregue aos cuidados de Walderez Cardoso. "Procuramos convidar atores com grande experiência teatral - muitos deles vêm de montagens de Antunes Filho e Ulysses Cruz - mas que tivessem tipo físico que lhes permitisse representar tupinambás". Desse grupo fazem parte Darci Figueiredo, Milton Almeida, Ariana Messias, Valdir Ramos, Reynaldo Puebla, Fátima Ribeiro e Walter Portela. Também aparecem caracterizados como índios Beto Simas e Stênio Garcia. Como "europeus" participam Sérgio Mamberti, Cláudia Liz e Carlos Evelyn, no papel de Staden. O filme tem ainda a participação de índios de verdade, das tribos Xavante, Kadwell, Munduruku, Queichua e Guarani. Os cantos e danças indígenas, que contribuem para dar a impressão de uma viagem no tempo, foram ensinados pela compositora e cantora Marlui Miranda.

Sergio Mamberti, no filme um mercador judeu de origem francesa, conta que ficou impressionado com o realismo da aldeia-cenário, com suas tabas enormes e índios pintados com urucum. "A nossa aproximação com o universo indígena é folclórica, nós não temos mais a percepção, hoje, do que significa a herança cultural dos índios", afirma. Mamberti se diz convencido de que o caráter brasileiro, embora seja resultado de uma mistura racial, tem uma participação especial dos índios. "O recheio todo é indígena, o glacê e a cereja é que são do branco e do negro", diz. "Como os índios, nós temos uma grande capacidade de superar traumas, só está nos faltando um pouco mais daquela insubmissão tupiniquim".

A história de Hans Staden ganhou uma exposição (textos e ilustrações do livro de memórias) na 24ª Bienal de São Paulo, ano passado, cujo tema era antropofagia e canibalismo. Os adultos de hoje, porém, estão familiarizados com a saga do alemão através da obra de Monteiro Lobato. No seu Aventuras de Hans Staden, narradas por Dona Benta, Lobato incluiu muito do folclore nacional, como o mito de Iara, a Mãe D’água, versão que em parte inspira o filme de Luiz Alberto.

Figurinos rústicos

O trabalho de reconstituição de época de Hans Staden é um dos orgulhos do diretor, Luiz Alberto Pereira. A figurinista Cleide Fayad dedicou meses à pesquisa sobre o que vestiam as pessoas do século 16 e, no caso dos índios, como usavam os adornos e pinturas sobre o corpo. Os registros que encontrou foram, na maioria, iconográficos. Segundo Cleide, um dos maiores problemas de pesquisar esse período é o fato de que, em geral, o que sobreviveu aos séculos foi a reprodução das vestes e dos hábitos dos personagens da realeza, da elite da época. Do chamado povão, ou seja, mercadores e aventureiros de todas as procedências, índios e primeiros mestiços, pouco se sabe. São exatamente estes os protagonistas de Hans Staden.

"Com base nas roupas da elite, as golas altas etc, tentei imaginar como os trabalhadores se vestiam, adequando essa moda às necessidades do seu trabalho específico", explica a figurinista. O resultado são roupas rústicas, que ela fez questão de costurar artesanalmente, como se fazia na época. Depois de confeccionadas, as vestes foram envelhecidas e, de propósito, sujas, pois os seus donos, no filme, são portugueses ou filhos de portugueses em guerra permanente contra os tupinambás. "A minha preocupação era fazer figurinos de época que falassem a verdade, sem artificialismos", diz Cleide.

O algodão rústico, as peles, o couro e as sementes são algumas das matérias-primas usadas pela figurinista. No caso dos índios, que no filme são agrupados em três tribos, Cleide teve o cuidado de escolher os ornamentos de acordo com a localização geográfica: os que viviam à beira-mar ganharam colares de conchas, enquanto os que se encontravam mais para o interior, enfeites de sementes. Os cocares, todos em tons escuros, sóbrios, para evitar o aspecto exótico, o clichê, foram feitos por índios de hoje, sob encomenda. A pintura dos índios do filme foi feita de acordo com a cena. Em situações normais, o urucum e o jenipapo (o tom preto); em rituais de canibalismo, o rosto coberto por casca de ovo bem picadinha. (P.Q.)

Saga do aventureiro

O filme conta a história de Hans Staden, viajante alemão que naufragou no litoral de Santa Catarina em 1550. Dois anos depois, conseguiu chegar a São Vicente, reduto da colonização portuguesa, onde permaneceu por algum tempo trabalhando como artilheiro do Forte de Bertioga. Staden escravizou um índio, da tribo Carijó, e, certo dia, preocupado com o seu desaparecimento, navegou pelas redondezas e deu de cara com sete tupinambás, que o cercaram. Os tupinambás o levaram para a sua aldeia, em Ubatuba, com a intenção de devorá-lo.

Segundo a crença tupinambá, o matador de Staden trocaria de personalidade. O ritual era fundamental para o índio ser reconhecido como um guerreiro, recebendo um novo nome. O alemão tentou de tudo para manter-se vivo: inventou que era francês, povo aliado dos tupinambás, mas foi desmascarado. Apelou então para o misticismo, afirmando ser curandeiro e adivinho, e os índios desistiram de devorá-lo.

A opinião dos índios

O filme de Luiz Alberto Pereira mostra os primórdios da história do Brasil, quando o país tinha uma população na sua maioria indígena. Hoje, nem mesmo os poucos índios que restam vão se reconhecer na obra. O pajé Saltako e seu filho Aulahu, da tribo Waurá, que moram no Parque Nacional Indígena do Xingu, Mato Grosso, por exemplo, já viram muitos filmes de índios - mas na televisão. Na sua aldeia, uma das poucas em que a cultura original é preservada - eles andam nus e seguem os mesmos rituais de seus antepassados -, os brancos já deixaram ensinamentos: cada pesquisador ou curioso que entra na reserva tem que pagar R$ 30,00. O dinheiro é usado para comprar tratores, barcos, combustível, remédios e material escolar.

De passagem por São Paulo, pai e filho deram sua opinião sobre a idéia de fazer um filme que mostra a origem indígena da cultura brasileira. Quem sabe voltar a falar de índio, disse Aulahu, lembre ao homem branco a necessidade de preservar as matas, sem as quais os poucos que restam não sobrevivem. "O mato está quase acabando e, com o sol quente e a falta de chuva, não há o que comer nem raízes para a cura", disse. (P.Q.).

(fonte: JORNAL DO BRASIL - Sexta-feira, 12 de março de 1999 - PAULA QUENTAL - S.Paulo - Foto de Divulgação)

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